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O número 1 da era oito bits

Saiba como a Atari atingiu seu apogeu com uma máquina que nem seus próprios desenvolvedores achavam que era grande coisa...

Por Paulo C. Barreto - atualizado em 18/02/2004

O surgimento do fenômeno Atari

Sob o comando do lendário (no bom sentido) Nolan Bushnell, a Atari inventou a indústria de videogames como a conhecemos. Com o megaclássico Pong, lançou as primeiras máquinas de arcade com monitores de vídeo. Depois pegou carona no sucesso do pioneiro Magnavox Odyssey, faturou zilhões com a versão doméstica do Pong (fora o lucro dos imitadores, é claro). Em algum tempo a Atari acabou sendo comprada pela gigante Warner. O mercado de entretenimento doméstico prometia.

Agora que o consumidor já tinha se cansado dos "telejogos", a Atari entrou na nova onda: os consoles com jogos gravados em cartuchos intercambiáveis. O (hoje esquecido) Channel F da Fairchild lançou o conceito, mas foi a Atari que conheceu a fama.Aqui entra o texto de destaque dessa paradinha meio besta aqui que eu tou fazendo e eu nem sei se vai dar certo! Aqui entra o texto de destaque dessa paradinha meio besta!

A máquina era o Video Computer System (VCS). Apesar da pretensão do nome, tratava-se de algo bem modesto, mesmo para os padrões de 1977. O objetivo era manter o preço do console tão baixo quanto possível, pois a venda de cartuchos seria a verdadeira fonte de lucro. Com um processador 6502 (o mesmo do Apple II) de 1,19 MHz e alguns poucos bytes (nem kbytes nem megabytes!) de RAM, o VCS fazia muitíssimo mais que o velho Pong, mas não ia além de manipular gráficos simples e sons pouco inspirados. Pelo menos foi assim nos primeiros anos, antes que os cobras da programação aprendessem a tirar do console tudo que ele pudesse proporcionar...

Sinônimo de videogame

O grande salto do VCS (rebatizado Atari 2600 em 1982) coincidiu com a febre mundial das máquinas de arcade, despertada nos primeiros anos da década de 80 com o lançamento de uma série de engolidores de fichas que marcaram época. Pac-Man, é claro, à frente de todos. A própria Atari e inúmeras produtoras de jogos independentes encontraram o caminho do sucesso fazendo cartuchos com conversões dos sucessos do arcade: Space Invaders, Asteroids, Missile Command e tantos outros.

Diante das limitações do console doméstico (confira só como eram os jogos originais com a ajuda do Mame!), os jogos sempre perdiam um bocado na conversão para o 2600. Geralmente os espertos programadores compensavam na jogabilidade e nas incontáveis variações (por exemplo, o Asteroids para 2600 podia ser jogado em 66 modos diferentes). O próprio Pac-Man do cartucho, feito meio às pressas, não foi exatamente um sucesso de crítica, para dizer o mínimo. Mas como saiu numa época em que tudo que tinha a marca "Pac-Man" voava das prateleiras, o jogo acabou sendo um sucesso de vendas esmagador. Muito mais caprichados, Ms. Pac-Man e Jr. Pac-Man salvaram a reputação do console para os comilões amarelinhos.

A prata da casa

Se as conversões de arcade tornaram o 2600 popular, foram os jogos originalmente concebidos para o console da Atari que liberaram de vez a veia artística dos programadores. A própria Atari fez bonito com títulos como o sempre bem lembrado Adventure, mas acabou ficando em segundo plano como produtora: os gênios criativos estavam em softhouses como Imagic e Activision. Principalmente nesta última, recheada de programadores formados na Atari e insatisfeitos com as práticas do titã da indústria. Foi o tempo de River Raid, Enduro, Pitfall!, Megamania, Keystone Kapers e outros megaclássicos que serão eternamente associados ao Atari 2600.

Agora que o 2600 reinava supremo e as porteiras da concorrência estavam abertas, por volta de 1982 parecia que todo mundo queria garfar sua fatia do bolo. Dezenas de empresas, a maioria sem a menor familiaridade com jogos e programação, achavam que podiam fazer cartuchos para Atari. Surgiram até uns jogos pornôs (!) absurdos e pouco animadores, no sentido mais amplo do termo...

A queda de qualidade média foi inevitável. Para piorar, naquele tempo despontavam consoles concorrentes tecnicamente superiores (desta vez o preço não foi problema, pois os componentes já eram bem mais baratos) e a onda dos computadores pessoais (até os da própria Atari) começava a ganhar força. Não que a onda do Atari 2600 fosse durar para sempre, mas...

Hardware e mais hardware

O pacote básico do Atari 2600 era modesto: o console pretinho, dois joysticks (muito criticados, pois eram fáceis de quebrar e pouco anatômicos; no entanto, se mantiveram como padrão de mercado) e dois paddles (botões rotativos, usados em alguns jogos como o fantástico Warlords.). Com o tempo, proliferaram os acessórios, inventados e fabricados pela própria Atari ou por (muitos) terceiros, com resultados variados: joysticks sem fio, vários modelos de teclados que transformavam o Atari num computador (mas não espere grandes coisas), tecladinhos numéricos, módulos que carregavam jogos gravados em fita cassete...

Mesmo sem ter sido lançado no mercado, o curioso MindLink ficou famoso: era um sistema que permitia controlar o Breakout (o velho jogo de derrubar uma parede de tijolos, pai de Arkanoid e quaquilhões de similares) com a "força da mente". Não deu muito certo.

Coleco e Mattel, fabricantes de consoles concorrentes, lançaram adaptadores para o ColecoVision e o Intellivision que permitiam rodar os popularíssimos (apesar de tecnicamente mais pobres) cartuchos de Atari 2600. Depois de uma briga de direitos autoriais, a Coleco se viu obrigada a pagar à Atari uma comissão pelas vendas de seu muito popular adaptador. Só que a Coleco acabou lançando um console separado (nada a ver com o ColecoVision), clone do 2600. O Gemini era notável por seu tamanho reduzido, linhas enxutas e um controle de jogo que combinava joystick e paddle em uma só peça. Apesar do sucesso, não foram muitas as unidades fabricadas. O ainda mais escasso Columbia Home Arcade era idêntico ao Gemini, a não ser pela etiqueta.

E nas terras brasileiras...

À altura de seu sucesso, o Atari 2600 deu origem a uma megaindústria no Brasil: locadoras de cartuchos em cada esquina, oficinas de transcodificação de consoles importados, montadoras de cartuchos "legítimos" e, é claro, dúzias de clones em "homenagem" ao clássico da Atari.

Mas só o console da Polyvox trazia a marca Atari e reproduzia o original em detalhes. Apesar do preço meio salgado e de não ter sido o primeiro Atari "made in Brazil" a aterrissar nas lojas, o aparelho tornou-se referência de mercado (com joystick antianatômico e tudo) e entrou nas listas de Papai Noel de nove entre dez crianças.

A concorrência lançou consoles notáveis, como o Dynavision, famoso por seus controles que serviam para destros e canhotos, e o Top Game da CCE, fortemente inspirado na elegância do Gemini.

A criatividade dos clonadores brasileiros não tinha limites. O Onyx, lançamento relativamente tardio da Microdigital, incluía até o botão de pausa que tanta falta fazia no console original. Uma das versões do Dactar (que, em geral, era bem semelhante ao 2600 de verdade) vinha embutida numa maleta 007, ideal para levar o cobiçado Atari às casas dos vizinhos. Na época, não foi um grande sucesso, mas hoje é disputado à tapa pelos colecionadores em todo o mundo.

Jamais um console no Brasil teve um domínio de mercado tão arrasador quanto o que o Atari 2600 conquistou. Os concorrentes Odyssey e Intellivision disputavam um distante segundo lugar; o Splicevision (clone nacional do ColecoVision) nunca causou muito impacto; em tempos de reserva de mercado de informática, os computadores domésticos (MSX, TK90X, clones do Apple II) eram muito caros para o jogador mediano. Entre o crash internacional dos videogames, por volta de 1984, e o surgimento no Brasil do Master System e dos clones do Nintendo de oito bits, cinco anos depois, foi o Atari 2600 que preencheu a lacuna no mercado de consoles na Pátria Amada.

Ao apagar das luzes...

Depois do sucesso do 2600, a Atari nunca mais foi a mesma. A própria gigante do videogame já tinha pavimentado o caminho da sucessão ao lançar o turbinado Atari 5200 -- hypeado à exaustão e detentor dos títulos mais famosos do mercado de jogos, mas que nunca "aconteceu" de verdade. 1984 não foi ruim só para a Atari: pelo que parece, todos os consumidores internacionais desistiram dos videogames a um só tempo (no Brasil, nem tanto). Numa jogada desesperada, a Warner vendeu a divisão de consoles e computadores pessoais (no entanto, ficou com a de arcades, que continuava lucrativa) para a empresa de Jack Tramiel. Alguns anos depois a nova direção tentou um novo sopro de vida ao velho sistema com o pequenino e elegante Atari 2600 Jr: não era novidade nenhuma, mas o baixo custo era um bom apelo. Vieram outras linhas de videogames e alguns excelentes computadores pessoais da Atari; só que o alto do pódio no fim dos anos 80 já estava destinado à Nintendo. E esta é outra história...

 

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